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sábado, outubro 27, 2007

Há momentos em que o país enlouquece e a vontade de ser do contra é maior do que a racionalidade exigida a quem quer ser do contra. Nestas ocasiões, a simples existência de factos (mesmo que desfavoráveis à causa defendida) chega para se sustentarem posições que nada têm a ver com os factos que lhes deram origem.
Servem estas considerações teóricas para comentar uma das mais recentes discussões do Saúde SA, em que os limites do absurdo foram mais uma vez ultrapassados, desta vez puxados pela locomotiva de um dos tablóides da política de saúde, o Diário Económico.
Concretizando o que atrás se diz, aqui fica o post do Saúde SA que deu origem à discussão:

Compromisso prá Saúde


Finalmente!
Os HHs do SNS vão poder conter a despesa e equilibrar as contas.
Simples!

As farmácias hospitalares em processo de concessão (out sourcing) vão passar a vender medicamentos de distribuição exclusiva hospitalar para o tratamento dos doentes com patologias do cancro e Hiv/Sida.

Trata-se de dar cumprimento ao previsto no artigo 14.º do acordo "Compromisso para a Saúde", estabelecido entre o XVII Governo Constitucional e a ANF: Serão instaladas farmácias de venda ao público nos estabelecimentos hospitalares para dispensarem receituário dos serviços oficiais de saúde, devendo funcionar 24 horas por dia e 365 dias por ano. Estes serviços serão concessionados, sendo dada preferência a proprietários de farmácias localizadas na mesma zona.link

O negócio vale 320 milhões link, mais coisa, menos coisa.
Ganham os HHs, ganham os filiados da ANF ! Perdem os doentes do SNS:
«As farmácias hospitalares não estão nem nunca vão estar preparadas para vender medicamentos para o cancro». Laranja Pontes,presidente do IPO/Porto.

Trata-se da medida, mais humilhante, em prejuízo dos doentes do SNS, prevista no acordo de capitulação estabelecido entre o primeiro ministro, José Sócrates e a ANF. Eufemisticamente designado de "Compromisso para a Saúde".

Eu comentei assim:
Confesso a minha estupefacção com o que se passa neste blogue: quem vos viu e quem vos vê, meus caros!
Apesar de já estar há algum tempo sem intervir neste magnífico fórum de discussão, desta vez não me consigo conter, tamanhas são as imprecisões e tão afastada da realidade está a discussão.
Mas comecemos pelo princípio: ao contrário do que por aqui se diz, este é um péssimo trabalho do DE.
A notícia tal como está é sensacionalista, imprecisa e, em alguns aspectos, errada.
Se seguirem o link que o Xavier disponibilizou (para o "compromisso com a saúde")poderão verificar que aqui se estão a misturar duas questões diferentes: a abertura de farmácias comunitárias (iguais às que actualmente existem pelas ruas e aldeias de todo o país) nas instalações dos hospitais e a venda de produtos que até agora têm sido de uso restrito hospitalar em farmácias comunitárias (localizadas em hospitais ou em qualquer outro local).
Ou seja, não podemos confundir as farmácias hospitalares, que desde sempre foram responsáveis pela distribuição de medicamentos "para o cancro e SIDA" (eu próprio o fiz na minha curtíssima passagem pela farmácia hospitalar há quase 10 anos) com as novas farmácias que vão abrir nos hospitais ou com as farmácias comunitárias que já existem em todo o país.
Até porque os farmacêuticos hospitalares são seguramente os profissionais de saúde mais bem preparados e com mais experiência nestas funções, que aliás desempenham desde sempre.
Por outro lado, é absurdo referir que as novas farmácias dos HHs constituem a principal preocupação deste aspecto do "compromisso", uma vez que estas, pela sua proximidade aos HHs e respectivos serviços de farmácia hospitalar, até serão aquelas em que haverá maior facilidade de esclarecimento de dúvidas e melhor acesso à informação.
Além disso, o "compromisso" não prevê a passagem de todos os medicamentos "para o cancro e SIDA" para fora dos HHs, mas apenas aqueles em que isso é tecnicamente possível (há muitos em que isso será impossível, pois a sua preparação exige condições laboratoriais muito específicas e que dificilmente seriam implementáveis na maioria das farmácias comunitárias). Ou seja, mesmo que o valor total do mercado seja de 320 milhões de euros, só uma parte deste é que está em causa.
Por outro lado, temos que ser intelectualmente honestos na apreciação económica que fazemos do projecto: sendo público que as novas farmácias a abrir nos HHs vão pagar ao hospital uma mensalidade fixa de cerca de 10.000 euros mais uma mensalidade variável correspondente a 36% da facturação (recordo que a margem legal dos medicamentos é 18,25%, que passam a 25,12% se se adicionar a margem da distribuição), a verdade é que desta forma o Estado poupará imenso dinheiro nestes medicamentos, pois não acredito que os esteja a comprar mais baratos do que o valor correspondente à diferença entre o preço final e o que é devolvido por via da quota variável das novas farmácias hospitalares!
Ou seja, esta é uma medida de grande poupança por parte do governo e que facilmente pode ser salvaguardada sob o ponto de vista técnico (restringindo o número de fármacos abrangidos e exigindo formação específica aos farmacêuticos responsáveis pela sua cedência).
Por último, e respondendo ao É-pá: ao contrário do que refere, este nunca foi um "desejo secreto" da ANF, mas sim um projecto sempre assumido (basta ver as declarações de Manuela Arcanjo ao DE).
E ao contrário do que por aqui se escreve, as novas farmácias que vão abrir nos HHs são um enormíssimo problema para a ANF (arrisco mesmo a dizer: o mais grave problema desde a fundação da ANF) e não uma vitória política ou económica.
Pessoalmente eu sou contra a abertura das novas farmácias nos HHs e também não concordo com a cedência destes medicamentos fora dos serviços de ambulatório da farmácia hospitalar tradicional. No entanto, é inquestionável que o Estado vai conseguir grandes poupanças com a implementação destas medidas!

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Comments:
Não seentende a exaltação do vladimiro.

Senão vejamos:

O compromisso para a Saúde ´prevê o outsourcing de farmácias hospitalares.

Estas farmácias poderão comercializar os produtos usualmente dis poníveis nas farmácias comunitárias.

E ainda:

produtos naturais;
- produtos veterinários;
- produtos de saúde e conforto;
- vacinas não incluídas no Plano Nacional de Vacinação da Direcção-Geral de Saúde, administração de medicamentos e primeiros socorros;
- meios auxiliares de diagnóstico e terapêutica.

E ainda:

«Os medicamentos actualmente distribuídos nos hospitais e que possam tecnicamente ser dispensados em farmácias, poderão ser por elas distribuídos, em termos a regulamentar.»

E aqui vamos ver até onde vai o desplante dos peritos do Infarmed e dos professores Vaz Carneiro e Vasco Maria.

A grande jogada do MS está em lançar para o circuito comercial os medicamentos de distribuição gratuita hospitalares do Hiv/sida e oncológicos.
Os utentes vão ter que avançar com o seu dinheiro (posteriormente reembolsado pelo SNS) para ter acesso a estes medicamentos. Tipo ADSE.
O Dr. Vladimiro sabe o que isto significa para os doentes do SNS?

Comparado com isto, a receita resultante da exploração destes estabelecimentos que tanto parece impressioná-lo, são peanuts.

O dr. Vladimiro acaba por confessar que não concorda com esta medida do compromisso para a saúde.
Tudo bem!
Não sabe, ou não compreendeu, no entanto, a verdadeira razão da sua discordância.

Um abraço

Nota: Também nos pareceu algo destreinado.
Ainda estamos a tempo.
 
Não adianta, João Pedro, pois não estamos a falar do mesmo...
Eu ainda sou do tempo em que as medidas anti-ANF eram populares...!
 
Caro VJS,

O compromisso para a Saúde prevê de uma assentada a concessão de farmácias hospitalares e a venda de medicamentos de distribuição exclusiva hospitalar (não todos como é evidente).

Estas medidas irão traduzir-se em profundas alterações do circuito de distribuição do medicamento hospitalar (é isto que importa analisar e não o aumento das receitas dos HHs).

a) os medicamentos gratuitos (100%)de distribuição exclusiva hospitalar (pelos riscos que envolvem) vão passar a ser distribuídos por farmácias privadas concessionadas;

b) Está aberto o caminho à moderação do acesso a estes medicamentos, onerando os utentes e, correlativamente, reduzindo a comparticipação estatal;

c) Os HHs vêem-se livres dos encargos financeiros resultantes da aquisição e distribuição destes medicamentos;

d) A ANF ganha uma fatia importante do mercado de medicamentos hospitalares;

e) As farmácias de bairro poderão sentir algum efeito marginal da sua facturação, resultante da entrada em funcionamento das farmácias hospitalares concessionadas;

f) Vantagens para os doentes?

-melhoria do acesso a estes medicamentos? Não creio.

- aumento dos riscos? Certamente.

- Termo da gratuidade (100%). Num futuro próximo.

Se isto são imprecisões...
 
Brilhante comentário do VJS.

Nota-se que este blog tem deixado de prestar atenção ao sector das farmácias. Ainda estão todos muito formatados com o discurso anti-ANF.

O problema é que o CC está a conseguir aquilo que queria: A divisão das farmácias e a corrosão do poder da ANF. Basta ver quem ganhou os concursos das farmácias de venda ao público a instalar nos hospitais dos Covões, Sta Maria, Leiria, Faro e Sto António. Mas para além de verem quem os ganhou, vejam também quanto se propõem a pagar aos hospitais e meditem um pouco sobre isso...

Já agora Xavier, se os medicamentos forem pagos pelas ARS (via comparticipações) e não pelos HH, que é que paga? Não é o mesmo Estado? Onde é que o Estado poupa? Ok. Aceito que possa ser o abrir da porta aos co-pagamentos destes medicamentos, mas pelo simples facto de mudar o centro de custo, não se muda o responsável último pelo seu pagamento.

Por outro lado, acho fascinante o facto de entender que o facto destes medicamentos estarem actualmente acessíveis apenas nos HH ser razoável.
Mas então não diziam que 2500 farmácias era pouco para garantir uma boa acessibilidade??? Então e agora acha que 100 HH (serão??) são suficientes para garantir uma boa acessibilidade?
 
O xavier respondeu assim;

"Cara Farmasa,

Nesta análise, como sabe, o que está em causa é o facto de as novas farmácias hospitalares (concessionadas) passarem também a comercializar medicamentos que só são distribuídos nos HHs devido aos riscos que envolvem.

A decisão do Governo é má por representar maior risco para os doentes, perda de qualidade da prestação de cuidados e também por encobrir, relativamente ao acesso aos medicamentos oncológicos e HIV/Sida, uma nova estratégia do circuito de distribuição destes medicamentos visando, essencialmente, a redução de gastos.

O farmacêutico da farmácia hospitalar concessionada vai perguntar ao doente quando foi a sua última consulta da especialidade?
Ou preocupar-se, se o número de embalagens prescritas é para x ou y dias de tratamento?

Nesta matéria é irrelevante ser contra ou a favor da ANF.

A borrada foi do primeiro ministro e do MS.

As dores de cabeça são dos peritos que têm de dar sequência a estes disparates.

Nota: Ao que parece passámos férias no mesmo local e não nos falámos.
Ressentimentos ANF?"


AO que eu respondi assim


Caro Xavier,

Não sou uma Farmasa, mas sim um Farmasa... Presumo que esteja enganado a meu respeito.

Pelo que depreendo do "Compromisso para a Saúde", a distribuição de medicamentos oncológicos e anti-retrovirais não será exclusiva das farmácias a instalar nos HH. Estas farmácias serão exactamente iguais, do ponto de vista legal, às restantes farmácias de rua. Aliás, nem de outra forma poderia ser. A única coisa que, até ao momento, difere entre elas, é que as hospitalares não contam para o limite de 4 farmácias para cada indivíduo/entidade.

Analisando a medida em si, o que acho é que não há evidência científica que valide uma ou outra opção (distribuição em HH vs distribuição em Farmácias de rua).

Compreendo os seus receios, que também são os meus. No entanto, não estou convencido sobre qual a melhor medida.

Apesar de tudo, CC não tomaria este tipo de medidas se achasse que, com elas, iria gastar mais. Se optou por esta solução é porque entende que é mais barata. Resta saber se é a que melhor serve a saúde pública.

Já agora, gostava de saber qual a opinião dos comentadores do SaudeSA sobre a forma de atribuição dos alvarás de farmácia: sorteio!

Seria aceitável vermos clínicas a abrir por sorteio? notários por sorteio? Governo por sorteio? Talvez tivessemos melhor sorte!
 
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