Domingo, Junho 16, 2013
A greve dos professores
Os professores têm toda a razão em estar insatisfeitos. A forma como este governo (e também os anteriores, reconheça-se) tem actuado face ao serviço público de educação é absolutamente miserável e conduziu a uma muito objectiva degradação da qualidade do ensino público. Nuno Crato é um péssimo ministro, cuja carreira académica passada tem sido usada para branquear uma actuação a todos os títulos lamentável e profundamente reprovável.
Os professores são mal pagos, têm más condições de trabalho e são obrigados a trabalhar em sistemas absolutamente anti-pedagógicos e que em nada premeiam os melhores profissionais. Frequentemente têm vidas pessoais muitíssimo prejudicadas pela incompetência de quem gere o processo de colocação e, sobretudo, são profissionais que não mereciam isto.
A esmagadora maioria dos professores que conheci ao longo da vida eram pessoas de grande valor, tendo alguns sido mesmo verdadeiramente excepcionais. Ainda hoje recordo muitas coisas que me foram ensinadas por grandes professores. Os professores são uma das profissões mais importantes na nossa sociedade.
Dito isto, há também que dizer que os sindicatos dos professores não fazem, nem nunca fizeram, parte da solução - criam problemas, exercem pressões inaceitáveis sobre os seus pares e promovem uma cultura de reivindicações centradas em privilégios e direitos adquiridos que em nada contribui para a resolução dos problemas dos professores e do ensino. Os sindicatos de professores lutam pelos que estão colocados e habitam o sistema há mais tempo, esquecem-se dos que estão fora do circuito e são geridos por professores que passam anos sem dar aulas, exclusivamente dedicados à actividade sindical.
É este tipo de reivindicação oligárquica e elitista que está na base desta greve aos exames. É absolutamente indecente o que estas cúpulas de indivíduos politicamente motivados e que estão há anos sem dar uma aula decidiram fazer aos alunos dos outros.
E é, também, contraproducente. É que fora das reuniões magnas dos professores há todo um país que vê crianças e jovens inocentes a serem sacrificados em nome da vaidade e sede de protagonismo destes sindicalistas egocêntricos. E para o resto da população os professores, cuja luta era aceite de forma quase unânime, estão a perder a razão, pois os fins obviamente não justificam os meios. Os alunos, que são as supostas razões de ser da existência das escolas e dos próprios professores, estão a ser o "sacrificial lamb" desta luta pelos tempos de antena mediáticos.
A greve não é uma boa forma de luta. É, aliás, a pior das formas de luta. Haveria imensas formas alternativas de protesto - desobediência civil na aplicação do acordo ortográfico, manifestações junto aos ministérios, greve apenas à avaliação dos filhos dos ministros e deputados dos partidos do poder, cordões humanos, sessões de sensibilização da população para os males que o governo faz ao ensino, divulgação pública do estado em que estão as escolas, etc. Isto que se está a passar não é uma greve ou uma luta pela qualidade do ensino, mas sim outra coisa qualquer, algures entre a luta partidária e a defesa de privilégios instalados. Mas longe, muito longe, do que seria preciso fazer. Quer para os professores, quer sobretudo para os alunos.
PS - Se o futuro dos alunos é um dano colateral aparentemente admissível para a elite sindicalista, há outros danos colaterais destra greve, muito bem explicados pelo Jorge Peliteiro.
Os professores são mal pagos, têm más condições de trabalho e são obrigados a trabalhar em sistemas absolutamente anti-pedagógicos e que em nada premeiam os melhores profissionais. Frequentemente têm vidas pessoais muitíssimo prejudicadas pela incompetência de quem gere o processo de colocação e, sobretudo, são profissionais que não mereciam isto.
A esmagadora maioria dos professores que conheci ao longo da vida eram pessoas de grande valor, tendo alguns sido mesmo verdadeiramente excepcionais. Ainda hoje recordo muitas coisas que me foram ensinadas por grandes professores. Os professores são uma das profissões mais importantes na nossa sociedade.
Dito isto, há também que dizer que os sindicatos dos professores não fazem, nem nunca fizeram, parte da solução - criam problemas, exercem pressões inaceitáveis sobre os seus pares e promovem uma cultura de reivindicações centradas em privilégios e direitos adquiridos que em nada contribui para a resolução dos problemas dos professores e do ensino. Os sindicatos de professores lutam pelos que estão colocados e habitam o sistema há mais tempo, esquecem-se dos que estão fora do circuito e são geridos por professores que passam anos sem dar aulas, exclusivamente dedicados à actividade sindical.
É este tipo de reivindicação oligárquica e elitista que está na base desta greve aos exames. É absolutamente indecente o que estas cúpulas de indivíduos politicamente motivados e que estão há anos sem dar uma aula decidiram fazer aos alunos dos outros.
E é, também, contraproducente. É que fora das reuniões magnas dos professores há todo um país que vê crianças e jovens inocentes a serem sacrificados em nome da vaidade e sede de protagonismo destes sindicalistas egocêntricos. E para o resto da população os professores, cuja luta era aceite de forma quase unânime, estão a perder a razão, pois os fins obviamente não justificam os meios. Os alunos, que são as supostas razões de ser da existência das escolas e dos próprios professores, estão a ser o "sacrificial lamb" desta luta pelos tempos de antena mediáticos.
A greve não é uma boa forma de luta. É, aliás, a pior das formas de luta. Haveria imensas formas alternativas de protesto - desobediência civil na aplicação do acordo ortográfico, manifestações junto aos ministérios, greve apenas à avaliação dos filhos dos ministros e deputados dos partidos do poder, cordões humanos, sessões de sensibilização da população para os males que o governo faz ao ensino, divulgação pública do estado em que estão as escolas, etc. Isto que se está a passar não é uma greve ou uma luta pela qualidade do ensino, mas sim outra coisa qualquer, algures entre a luta partidária e a defesa de privilégios instalados. Mas longe, muito longe, do que seria preciso fazer. Quer para os professores, quer sobretudo para os alunos.
PS - Se o futuro dos alunos é um dano colateral aparentemente admissível para a elite sindicalista, há outros danos colaterais destra greve, muito bem explicados pelo Jorge Peliteiro.
Quinta-feira, Junho 06, 2013
Quinta-feira, Maio 23, 2013
Não, eu não me aguentaria sem escrever sobre a Raquel e o Martim. Em primeiro lugar, porque de facto é difícil encontrar momentos em que os defeitos da esquerda se cruzam de uma forma tão nua, crua e evidente com as virtudes da direita.
Martim é um exemplo para todos nós: com base em boas ideias, capacidade de resolução de problemas, iniciativa e descaramento, fez-se à luta, sem medos e sem traumas. Todos teríamos muito a ganhar se fôssemos assim, esquecendo o fado do desgraçadinho que cada vez mais vemos diariamente repetido nos meios de comunicação social portugueses. Martim tentou, está a tentar e aparentemente está a conseguir. Merece seguramente todo o êxito que tem e, maior descaramento ainda, fez tudo isso com 16 anos, indiferente à espiral negativa em que os adultos lançaram o país a que ele veio parar.
Do outro lado temos Raquel, detentora de um seguramente extenso currículo académico, viciada em estereótipos e obstinada em brilhar na TV. Perante o cheiro de um alvo fácil, Raquel atacou: uma criancinha tenrinha tinha aparentemente aberto a guarda e estava à mercê de todo um arsenal argumentativo solidificado em horas de leitura de autores progressistas. O problema foi o que aconteceu a seguir.
No entanto, antes disso vamos analisar um pouco melhor a cena. Martim estava de pé, a intervir a partir da bancada e a espantar todos com a sua história pessoal. Uma história sobre risco, empreendedorismo, iniciativa, inconformismo, ingenuidade e, claro, a audiência estava cativada. No palco estava Raquel, irritada com o protagonismo do miúdo e sobretudo com a glorificação da economia de mercado que a respectiva história representava. Não podia ser. Então a meio de uma crise económica e de um programa de austeridade em que o Estado luta para se emagrecer ao máximo, o programa de TV em que ela era a estrela estava a transformar-se numa ode ao salve-se quem puder?! Era preciso actuar. Foi isso que Raquel fez, com o primeiro argumento que lhe ocorreu.
Ao confrontar absurdamente um jovem empreendedor com o suposto facto das empresas às quais ele dava trabalho estarem a contratar empregados pagando o mínimo exigido pela lei, Raquel estava apenas a despolarizar a conversa e não a discutir realmente o assunto. É evidente que se todos nos preocupássemos com a responsabilidade social de todos os intervenientes da cadeia de valor dos produtos que consumimos a nossa vida seria um caos (como muito bem o descreve este excelente texto do Blasfémias). E Raquel, que foi ao Prós e Contras envergando roupa provavelmente produzida nas mesmas circunstâncias que a que o Martim vende, estava apenas a afastar o foco do programa das virtudes (que também as há) do capitalismo.
É por causa deste fechar de olhos à realidade e deste ódio de estimação à iniciativa privada e ao sucesso individual que alguma esquerda (a da Raquel) não faz, nem nunca há-de fazer, parte de qualquer solução, seja qual for o problema que se venha a colocar.
Terça-feira, Maio 21, 2013
Viver no submundo
Para viajar de Coimbra a Espinho de inter-regional é preciso sair do comboio em Aveiro e comprar manualmente um novo bilhete, que não pode ser comprado em Coimbra nem online. A CP é, de longe, a pior empresa ferroviária que eu conheço, está sempre em greves e cada vez tem menos serviços. Não merece um cêntimo dos nossos impostos. Privatizem-na já!
Sábado, Abril 20, 2013
Segurando 1/4 de um rectângulo de papel higiénico, a minha filha que fazia 5 anos nesse dia disse-me: só posso limpar o pipi com isto, porque Portugal está em crise!
Sexta-feira, Abril 19, 2013
Robert Edwards
A minha crónica da RVR desta semana foi sobre Robert Edwards. Aqui fica o texto (o som pode ser ouvido aqui):
Foi em 1931 que Aldous Huxley, um escritor britânico que posteriormente veio a ser considerado um dos baluartes do pensamento moderno, escreveu o seu “Admirável Mundo Novo”. O livro era um fantástico exercício futurista, passado em Londres no ano de 2540 e constituía essencialmente aquilo a que o seu autor se referia como “utopia negativa”, ou seja, era uma espécie de sátira pessimista sobre o futuro, com especial ênfase em aspectos como a reprodução humana e o condicionamento psicológico e biológico da nossa espécie. Do livro constavam passagens como esta:
“As batas dos trabalhadores eram brancas e as mãos, enluvadas em borracha, pálidas, de aspecto asséptico. Um tapete rolante continuava a sua marcha enchendo o ar com o matraquilhar macio das suas engrenagens. Sobre ele milhares de provetas geometricamente alinhadas deixavam entrever um líquido quente e gelatinoso onde nadavam embriões humanos. Os transportadores continuavam a sua marcha lenta com o seu carregamento de homens e mulheres do futuro”.
A reprodução in vitro era de facto uma velha ambição da humanidade e a angústia perante o desconhecido fazia com que este cenário fosse encarado como algo de temível, longínquo, apenas alcançável por uma entidade superior e necessariamente má, tão fortes seriam os poderes na sua posse.
No entanto, a realidade ultrapassou a ficção e, 562 anos mais cedo do que Huxley previu (mas infelizmente 15 anos após a sua morte), foi mesmo possível concretizar o que até então parecia impossível: contra tudo e contra todos, perante o cepticismo geral e os medos de muitos, em Inglaterra, em 1978, Patrick Steptoe e Robert Edwards conseguiram o nascimento de uma criança após a realização de um tratamento de fecundação in vitro. Foi uma pedrada no charco, conseguida após anos de trabalho duma pequena equipa subfinanciada e quase solitária, criticada por muitos e completamente fora do star system dos investigadores da época.
Eram tempos em que tudo faltava: quando Edwards e Steptoe começaram a trabalhar nas suas tentativas de desenvolver a fecundação in vitro não existiam medicamentos adequados ao processo de estimulação ovárica, não se conhecia completamente o efeito de alguns dos poucos fármacos que existiam à época, não existiam catéteres apropriados para transferir embriões, os métodos analíticos necessários para aferir a concentração urinária ou sérica das várias hormonas envolvidas no processo de ovulação eram quase inexistentes, os meios de cultura e as condições laboratoriais eram absolutamente primários e nem sequer existiam testes de gravidez que permitissem conhecer imediatamente o resultado dos tratamentos!
Como também estávamos numa época em que as ecografias obstétricas ou não existiam ou estavam ainda a dar os primeiros passos, ninguém sabia verdadeiramente o que é que se estava a passar no útero de Lesley Brown, a primeira mãe de uma criança nascida por fecundação in vitro. Havia o receio de se estarem a criar monstros ou crianças com anomalias graves e, como se poderá pensar, o conservadorismo religioso encarava esta situação com o maior cepticismo. A própria universidade de Cambridge, a que Edwards e Steptoe estavam ligados, não encarava esta linha de investigação com bons olhos e por isso deslocalizou-os para Oldham, o que seria mais ou menos equivalente ao que sucederia se uma grande descoberta da Universidade de Coimbra fosse na realidade obtida em Condeixa.
Louise Brown, a menina que a 25 de Julho de 1978 se tornou na primeira criança a nível mundial nascida após a realização de um tratamento de fecundação in vitro, foi concebida após um tratamento em ciclo natural (isto é, sem estimulação ovárica), do qual resultou um único óvulo, que foi inseminado e transferido para o útero de Lesley Brown, uma inglesa de 30 anos com ambas as trompas obstruídas e uma história de mais de 9 anos de infertilidade. Quatro anos mais tarde, Lesley deu à luz uma segunda criança, Natalie Brown, na sequência de novo tratamento de fecundação in vitro. Em 1999 Natalie tornou-se na primeira criança nascida após fecundação in vitro a ser, ela própria, mãe de uma criança: aos 17 anos Natalie foi mãe de Casey, uma menina nascida após concepção natural. Era a prova que faltava e o fim do estigma para muitas outras crianças nascidas pelo mesmo método.
Robert Edwards, agraciado com o Prémio Nobel da Medicina em 2010 devido a esta fantástica descoberta (Steptoe faleceu em 1988), era um homem absolutamente brilhante, um embriologista visionário que teve a capacidade de persistir na luta pelas suas ideias e lutar de um modo perseverante contra as sucessivas adversidades que enfrentou. Este processo teve tudo para correr mal – e de facto foram necessários mais de 10 anos de investigação para que fosse possível o nascimento de Louise. No entanto, Edwards e Steptoe, com uma ética científica imbatível e uma capacidade de ousar inovar com pouco paralelismo a nível mundial lutaram sempre pelas ideias em que acreditavam e hoje o mundo seria um lugar completamente diferente se eles tivessem desistido.
Depois de 1978 tudo mudou: os nascimentos de crianças após fecundação in vitro multiplicaram-se e espalharam-se por todo o mundo. Hoje em dia são mais de 5 milhões as crianças nascidas na sequência destes tratamentos!
Robert Edwards e Patrick Steptoe ficarão na história como duas das pessoas que mais alegria trouxeram ao mundo em que vivemos. A humanidade deve-lhes muito, não só pelo valor da sua descoberta, mas sobretudo pelo capital de esperança que trouxeram a tantas pessoas. A infertilidade afecta 1 em cada 10 casais e para eles esta descoberta é uma verdadeira razão para viver.
Foi em 1931 que Aldous Huxley, um escritor britânico que posteriormente veio a ser considerado um dos baluartes do pensamento moderno, escreveu o seu “Admirável Mundo Novo”. O livro era um fantástico exercício futurista, passado em Londres no ano de 2540 e constituía essencialmente aquilo a que o seu autor se referia como “utopia negativa”, ou seja, era uma espécie de sátira pessimista sobre o futuro, com especial ênfase em aspectos como a reprodução humana e o condicionamento psicológico e biológico da nossa espécie. Do livro constavam passagens como esta:
“As batas dos trabalhadores eram brancas e as mãos, enluvadas em borracha, pálidas, de aspecto asséptico. Um tapete rolante continuava a sua marcha enchendo o ar com o matraquilhar macio das suas engrenagens. Sobre ele milhares de provetas geometricamente alinhadas deixavam entrever um líquido quente e gelatinoso onde nadavam embriões humanos. Os transportadores continuavam a sua marcha lenta com o seu carregamento de homens e mulheres do futuro”.
A reprodução in vitro era de facto uma velha ambição da humanidade e a angústia perante o desconhecido fazia com que este cenário fosse encarado como algo de temível, longínquo, apenas alcançável por uma entidade superior e necessariamente má, tão fortes seriam os poderes na sua posse.
No entanto, a realidade ultrapassou a ficção e, 562 anos mais cedo do que Huxley previu (mas infelizmente 15 anos após a sua morte), foi mesmo possível concretizar o que até então parecia impossível: contra tudo e contra todos, perante o cepticismo geral e os medos de muitos, em Inglaterra, em 1978, Patrick Steptoe e Robert Edwards conseguiram o nascimento de uma criança após a realização de um tratamento de fecundação in vitro. Foi uma pedrada no charco, conseguida após anos de trabalho duma pequena equipa subfinanciada e quase solitária, criticada por muitos e completamente fora do star system dos investigadores da época.
Eram tempos em que tudo faltava: quando Edwards e Steptoe começaram a trabalhar nas suas tentativas de desenvolver a fecundação in vitro não existiam medicamentos adequados ao processo de estimulação ovárica, não se conhecia completamente o efeito de alguns dos poucos fármacos que existiam à época, não existiam catéteres apropriados para transferir embriões, os métodos analíticos necessários para aferir a concentração urinária ou sérica das várias hormonas envolvidas no processo de ovulação eram quase inexistentes, os meios de cultura e as condições laboratoriais eram absolutamente primários e nem sequer existiam testes de gravidez que permitissem conhecer imediatamente o resultado dos tratamentos!
Como também estávamos numa época em que as ecografias obstétricas ou não existiam ou estavam ainda a dar os primeiros passos, ninguém sabia verdadeiramente o que é que se estava a passar no útero de Lesley Brown, a primeira mãe de uma criança nascida por fecundação in vitro. Havia o receio de se estarem a criar monstros ou crianças com anomalias graves e, como se poderá pensar, o conservadorismo religioso encarava esta situação com o maior cepticismo. A própria universidade de Cambridge, a que Edwards e Steptoe estavam ligados, não encarava esta linha de investigação com bons olhos e por isso deslocalizou-os para Oldham, o que seria mais ou menos equivalente ao que sucederia se uma grande descoberta da Universidade de Coimbra fosse na realidade obtida em Condeixa.
Louise Brown, a menina que a 25 de Julho de 1978 se tornou na primeira criança a nível mundial nascida após a realização de um tratamento de fecundação in vitro, foi concebida após um tratamento em ciclo natural (isto é, sem estimulação ovárica), do qual resultou um único óvulo, que foi inseminado e transferido para o útero de Lesley Brown, uma inglesa de 30 anos com ambas as trompas obstruídas e uma história de mais de 9 anos de infertilidade. Quatro anos mais tarde, Lesley deu à luz uma segunda criança, Natalie Brown, na sequência de novo tratamento de fecundação in vitro. Em 1999 Natalie tornou-se na primeira criança nascida após fecundação in vitro a ser, ela própria, mãe de uma criança: aos 17 anos Natalie foi mãe de Casey, uma menina nascida após concepção natural. Era a prova que faltava e o fim do estigma para muitas outras crianças nascidas pelo mesmo método.
Robert Edwards, agraciado com o Prémio Nobel da Medicina em 2010 devido a esta fantástica descoberta (Steptoe faleceu em 1988), era um homem absolutamente brilhante, um embriologista visionário que teve a capacidade de persistir na luta pelas suas ideias e lutar de um modo perseverante contra as sucessivas adversidades que enfrentou. Este processo teve tudo para correr mal – e de facto foram necessários mais de 10 anos de investigação para que fosse possível o nascimento de Louise. No entanto, Edwards e Steptoe, com uma ética científica imbatível e uma capacidade de ousar inovar com pouco paralelismo a nível mundial lutaram sempre pelas ideias em que acreditavam e hoje o mundo seria um lugar completamente diferente se eles tivessem desistido.
Depois de 1978 tudo mudou: os nascimentos de crianças após fecundação in vitro multiplicaram-se e espalharam-se por todo o mundo. Hoje em dia são mais de 5 milhões as crianças nascidas na sequência destes tratamentos!
Robert Edwards e Patrick Steptoe ficarão na história como duas das pessoas que mais alegria trouxeram ao mundo em que vivemos. A humanidade deve-lhes muito, não só pelo valor da sua descoberta, mas sobretudo pelo capital de esperança que trouxeram a tantas pessoas. A infertilidade afecta 1 em cada 10 casais e para eles esta descoberta é uma verdadeira razão para viver.
Quarta-feira, Abril 10, 2013
Danças, contradanças, um estalido e uma bola colorida
Quando o governo aprovou o OE para 2013 todos sabiam que este era anti-constitucional. Na verdade, o TC foi muitíssimo brando na apreciação que fez, tanto era o material por onde escolher (eu, que sou um reconhecidíssimo constitucionalista blogosférico, já aqui chamei a atenção para o conveniente facto das medidas que abrangem pensionistas e funcionários públicos - os grupos sociais a que os juízes do TC pertencem ou pertencerão - terem sido escolhidas como alvo preferencial de correcção pelo TC).
Também todos sabíamos que PPC e Gaspar nunca se poderiam demitir após dois orçamentos anti-constitucionais (dois em dois) e daí que o dramatismo tenha sido, no essencial, uma palhaçada.
Se mais dúvidas houvessem, também todos sabíamos que Miguel Relvas nunca sairia pelo seu próprio pé na véspera da demissão "por culpa do TC" de todo o governo.
A própria troika sabia que o OE era inconstitucional e por isso tratou atempadamente de acautelar os tais 4 mil milhões de almofada (eram 5 mil milhões as normas que estavam em causa).
Mais ainda, José Sócrates também nunca teria escolhido fazer a vida negra a António José Seguro nesta altura se existisse algum risco do governo se demitir.
O próprio Cavaco sabia que o OE iria ser constitucionalmente chumbado e que o governo iria dramatizar e por isso, na única atitude politicamente inteligente que lhe vi em toda a minha vida (e provavelmente também na dele), desvalorizou o dramatismo antes mesmo deste acontecer.
Também António Costa resguardou-se a tempo quando percebeu que o governo iria durar até ao fim.
Por fim, o único que aparentemente não sabia de nada era António José Seguro: a moção de censura nesta altura foi um tiro, perdão um estalido, de pólvora seca absolutamente estéril e inconsequente, mediaticamente atropelado pelo regresso de Sócrates, pela demissão de Relvas e pelas danças em torno da decisão do TC. Pior ainda, Seguro enredou-se entre um radicalismo que não vai poder ter consequências (não pode passar os próximos 2 anos a pedir a demissão de um governo que não vai cair - e no campo do radicalismo BE e CDU não lhe deixam qualquer veleidade syrizadora), o facto de já não poder fazer parte da solução (porque na verdade é parte do problema) e a rasteira que PPC e Portas lhe pregaram, ao envolvê-lo novamente com a troika, desta vez à força, contra a sua vontade e sem margem para recuar.
Enfim, e enquanto estas danças se processam, o mundo pula e avança como uma bola colorida nas mãos destas crianças...!
Também todos sabíamos que PPC e Gaspar nunca se poderiam demitir após dois orçamentos anti-constitucionais (dois em dois) e daí que o dramatismo tenha sido, no essencial, uma palhaçada.
Se mais dúvidas houvessem, também todos sabíamos que Miguel Relvas nunca sairia pelo seu próprio pé na véspera da demissão "por culpa do TC" de todo o governo.
A própria troika sabia que o OE era inconstitucional e por isso tratou atempadamente de acautelar os tais 4 mil milhões de almofada (eram 5 mil milhões as normas que estavam em causa).
Mais ainda, José Sócrates também nunca teria escolhido fazer a vida negra a António José Seguro nesta altura se existisse algum risco do governo se demitir.
O próprio Cavaco sabia que o OE iria ser constitucionalmente chumbado e que o governo iria dramatizar e por isso, na única atitude politicamente inteligente que lhe vi em toda a minha vida (e provavelmente também na dele), desvalorizou o dramatismo antes mesmo deste acontecer.
Também António Costa resguardou-se a tempo quando percebeu que o governo iria durar até ao fim.
Por fim, o único que aparentemente não sabia de nada era António José Seguro: a moção de censura nesta altura foi um tiro, perdão um estalido, de pólvora seca absolutamente estéril e inconsequente, mediaticamente atropelado pelo regresso de Sócrates, pela demissão de Relvas e pelas danças em torno da decisão do TC. Pior ainda, Seguro enredou-se entre um radicalismo que não vai poder ter consequências (não pode passar os próximos 2 anos a pedir a demissão de um governo que não vai cair - e no campo do radicalismo BE e CDU não lhe deixam qualquer veleidade syrizadora), o facto de já não poder fazer parte da solução (porque na verdade é parte do problema) e a rasteira que PPC e Portas lhe pregaram, ao envolvê-lo novamente com a troika, desta vez à força, contra a sua vontade e sem margem para recuar.
Enfim, e enquanto estas danças se processam, o mundo pula e avança como uma bola colorida nas mãos destas crianças...!
Sábado, Abril 06, 2013
Embora não tenha sido um espectador particularmente atento às reacções à sentença do TC, devo confessar que fiquei chocado. Aparentemente em Portugal é constitucionalmente aceitável que o governo aumente os impostos muito para além de toda a razoabilidade, encontrando-se apenas problemas quando as medidas incidem sobre funcionários públicos e pensionistas.
Mas que raio de Constituição é esta, que apenas protege um determinado tipo de cidadãos (curiosamente, os únicos "grupos" em que os próprios elementos do TC se inserem ou inserirão)?
Tudo isto é, de facto, profundamente lamentável: a Troika governa-nos sem legitimidade, contra todas as leis e de uma forma absolutamente incompetente, o governo valida e subscreve esta forma de actuação e o TC preocupa-se apenas em "safar" os seus.
Raios os partam a todos.
Quinta-feira, Março 28, 2013
Dare Devil e os copinhos de leite
Nos 2 intervalos (de 5 minutos cada, quando muito) que o Canal Panda ontem à noite me concedeu e nos resumos que ao fim do dia vi nos telejornais, assisti ao mais poderoso exercício de oposição dos últimos 2 anos.
O regresso de Sócrates foi, de facto, demolidor: não só arrasou o governo (o que seria previsível e, convenhamos, não era difícil), deixando perceber que com ele Vítor Gaspar nunca teria existido e salientando bem que, comparado com o que se está a fazer hoje, o memorando inicial era quase um episódio da Docinho de Morango, como também teve a inteligência de esmagar um alvo fácil e cujo esmagamento tem sido reclamado por uma parte significativa da população (obviamente refiro-me a Cavaco) e, por fim, de uma forma indirecta mas muitíssimo eficaz, mostrou ao país tudo o que Tozé Seguro deveria ser e não é: um líder carismático, combativo e com ideias bem definidas.
O homem teve dois maus governos, foi despesista, fez asneiras em série e deixou o país nas mãos da Troika? Sim, é verdade. No entanto, ontem recordámo-nos de que numa altura em que estamos sob ataque inimigo (da Troika) dava-nos muito mais jeito ter alguém assim (duro, combativo e com uma obsessão para a fixação numa determinada narrativa - fazendo, com todo o topete, aquilo de que acusava os outros) do que os paus mandados de Angela Merkel ou os copinhos de leite morno que actualmente temos na oposição.
Sexta-feira, Março 22, 2013
Os Apaziguadores
A história está cheia de gotas de água que fizeram transbordar copos. Foi assim no dia 28 de Junho de 1914, quando Gavrilo Princip, um anónimo estudante sérvio de 19 anos, se aproximou da carruagem onde seguia o arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro do poderoso império austro-húngaro e disparou os tiros que o assassinaram.
Depois deste trágico episódio o império austro-húngaro fez à Sérvia o chamado "Ultimato de Julho", que consistia essencialmente um conjunto de exigências consideradas como absolutamente inaceitáveis e que serviram apenas como pretexto para, perante o respectivo incumprimento, se poder declarar guerra à Sérvia. Esta declaração de guerra causou uma cascata de acontecimentos que resultaram na Primeira Guerra Mundial.
É neste ponto que estamos hoje, 99 anos mais tarde. A Alemanha decidiu humilhar Chipre e propôs um conjunto de medidas absurdas, inaceitáveis e sem qualquer efeito prático que não a aplicação de um castigo a um desagradável grupo de pequenos e arrebitados incumpridores da grande cartilha merkeliana. Fê-lo porque vai ter eleições internas em Outubro e porque, segundo as cabeças pensantes da CDU alemã, esta é a forma mais prática e instantânea de ganhar popularidade.
Esqueceu-se, porém, que há mais carteiras no mundo e sobretudo não teve em conta que os russos sempre que vêem a Europa em dificuldades gostam de dar um empurrãozinho, nem que seja apenas para mostrar quem manda.
Merkel e os seus lacaios ficaram a falar sozinhos e mais uma vez se viu que a UE é um grupo de nações circunstancial, táctica e formalmente unidas, mas que na verdade não têm o mínimo respeito umas pelas outras. Chipre é um país pequeno e pacífico, que apesar de estar territorialmente usurpado pela Turquia, encontrou um modelo de desenvolvimento que assenta num sistema bancário dinâmico, competitivo e com uma enorme capacidade de atrair depósitos externos. Aparentemente isso foi um atrevimento demasiado para o sistema nervoso de Angela Merkel, que sem perder demasiado tempo tratou de procurar esmagar o insecto irritante. Entre a espada e uma parede de espetos, Chipre mandou a espada à Merkel e fez-se à vida, resolvendo o problema da forma mais fácil.
O problema é que, tal como Gavrilo Princip em 1914, o Chipre é apenas a ponta de um iceberg de relações geoestratégicas complexas e cujo desequilíbrio pode gerar consequências imprevisíveis. Se a Rússia ajudar Chipre e este país sair do Euro (e seguramente que o fará a curto prazo, caso tenha a protecção russa), isso vai desencadear reacções em cadeia em muitas outras capitais, a começar precisamente pela vizinha Atenas, a braços com o mesmo problema e cuja população não vai aceitar o papel do trouxa que olha para um vizinho do lado que se safou à grande de uma complicação idêntica à sua e que no seu caso lhe está a provocar uma verdadeira catástrofe económico-social.
Se a Grécia seguir Chipre na saída do Euro e eventualmente também da UE, podemos estar perante a criação de um novo Pacto de Varsóvia, com a Europa a repolarizar novamente a Leste. Ora, este tipo de recuperação da influência geostratégica é manteiga no focinho do cão para a Rússia, que perante um cenário político interno progressivamente mais instável não vai seguramente enjeitar esta possibilidade de recuperar o seu papel global.
E é nessa altura que as coisas vão acontecer em cascata, provavelmente a uma velocidade vertiginosa: perante uma Europa em desagregação, o Reino Unido será, com toda a probabilidade, quem saltará fora mais cedo, dado o seu mais que fundamentado euro-cepticismo. Por outro lado, a federação de amigos da Alemanha e França (isto é, o que restar da União Europeia), com este tipo de saídas vai ficar progressivamente mais fraca no plano político, o que vai abrir espaço para a entrada em cena de outros actores. É relativamente fácil prever que os chineses vão ter todo o gosto em continuar a comprar as EDPs que por aí existirem e concorrer com os russos na influência regional na Europa.
E na frente económica as coisas só podem piorar: é que, à medida que os contra-pesos pobrezinhos forem saindo do Euro, este será uma moeda cada vez mais forte, com tudo o que isso implica para as exportações alemãs. De facto, a Alemanha precisa dos pobres do sul para manter o Euro a níveis aceitáveis e precisa que estes continuem pobres, sob pena de se tornarem inúteis. A paradoxal fragilidade do Euro forte só o tornará mais exposto às investidas russas e chinesas, que seguramente vão acabar por recortar as várias camadas da cebola europeia até deixar novamente a Alemanha sozinha.
E no meio disto tudo Portugal decidiu-se pelo papel do apaziguador, como escrevia há dias José Eduardo Martins no Jornal de Negócios, citando Churchill. O problema é que, como disse um dia este ex-primeiro-ministro britânico, "o apaziguador dá de comer ao crocodilo na esperança de ser comido por último". E, acrescento eu, algures no meio desta história vamos dar por nós dentro do estômago de alguém, provavelmente rodeados por chop-suey por todos os lados.
Depois deste trágico episódio o império austro-húngaro fez à Sérvia o chamado "Ultimato de Julho", que consistia essencialmente um conjunto de exigências consideradas como absolutamente inaceitáveis e que serviram apenas como pretexto para, perante o respectivo incumprimento, se poder declarar guerra à Sérvia. Esta declaração de guerra causou uma cascata de acontecimentos que resultaram na Primeira Guerra Mundial.
É neste ponto que estamos hoje, 99 anos mais tarde. A Alemanha decidiu humilhar Chipre e propôs um conjunto de medidas absurdas, inaceitáveis e sem qualquer efeito prático que não a aplicação de um castigo a um desagradável grupo de pequenos e arrebitados incumpridores da grande cartilha merkeliana. Fê-lo porque vai ter eleições internas em Outubro e porque, segundo as cabeças pensantes da CDU alemã, esta é a forma mais prática e instantânea de ganhar popularidade.
Esqueceu-se, porém, que há mais carteiras no mundo e sobretudo não teve em conta que os russos sempre que vêem a Europa em dificuldades gostam de dar um empurrãozinho, nem que seja apenas para mostrar quem manda.
Merkel e os seus lacaios ficaram a falar sozinhos e mais uma vez se viu que a UE é um grupo de nações circunstancial, táctica e formalmente unidas, mas que na verdade não têm o mínimo respeito umas pelas outras. Chipre é um país pequeno e pacífico, que apesar de estar territorialmente usurpado pela Turquia, encontrou um modelo de desenvolvimento que assenta num sistema bancário dinâmico, competitivo e com uma enorme capacidade de atrair depósitos externos. Aparentemente isso foi um atrevimento demasiado para o sistema nervoso de Angela Merkel, que sem perder demasiado tempo tratou de procurar esmagar o insecto irritante. Entre a espada e uma parede de espetos, Chipre mandou a espada à Merkel e fez-se à vida, resolvendo o problema da forma mais fácil.
O problema é que, tal como Gavrilo Princip em 1914, o Chipre é apenas a ponta de um iceberg de relações geoestratégicas complexas e cujo desequilíbrio pode gerar consequências imprevisíveis. Se a Rússia ajudar Chipre e este país sair do Euro (e seguramente que o fará a curto prazo, caso tenha a protecção russa), isso vai desencadear reacções em cadeia em muitas outras capitais, a começar precisamente pela vizinha Atenas, a braços com o mesmo problema e cuja população não vai aceitar o papel do trouxa que olha para um vizinho do lado que se safou à grande de uma complicação idêntica à sua e que no seu caso lhe está a provocar uma verdadeira catástrofe económico-social.
Se a Grécia seguir Chipre na saída do Euro e eventualmente também da UE, podemos estar perante a criação de um novo Pacto de Varsóvia, com a Europa a repolarizar novamente a Leste. Ora, este tipo de recuperação da influência geostratégica é manteiga no focinho do cão para a Rússia, que perante um cenário político interno progressivamente mais instável não vai seguramente enjeitar esta possibilidade de recuperar o seu papel global.
E é nessa altura que as coisas vão acontecer em cascata, provavelmente a uma velocidade vertiginosa: perante uma Europa em desagregação, o Reino Unido será, com toda a probabilidade, quem saltará fora mais cedo, dado o seu mais que fundamentado euro-cepticismo. Por outro lado, a federação de amigos da Alemanha e França (isto é, o que restar da União Europeia), com este tipo de saídas vai ficar progressivamente mais fraca no plano político, o que vai abrir espaço para a entrada em cena de outros actores. É relativamente fácil prever que os chineses vão ter todo o gosto em continuar a comprar as EDPs que por aí existirem e concorrer com os russos na influência regional na Europa.
E na frente económica as coisas só podem piorar: é que, à medida que os contra-pesos pobrezinhos forem saindo do Euro, este será uma moeda cada vez mais forte, com tudo o que isso implica para as exportações alemãs. De facto, a Alemanha precisa dos pobres do sul para manter o Euro a níveis aceitáveis e precisa que estes continuem pobres, sob pena de se tornarem inúteis. A paradoxal fragilidade do Euro forte só o tornará mais exposto às investidas russas e chinesas, que seguramente vão acabar por recortar as várias camadas da cebola europeia até deixar novamente a Alemanha sozinha.
E no meio disto tudo Portugal decidiu-se pelo papel do apaziguador, como escrevia há dias José Eduardo Martins no Jornal de Negócios, citando Churchill. O problema é que, como disse um dia este ex-primeiro-ministro britânico, "o apaziguador dá de comer ao crocodilo na esperança de ser comido por último". E, acrescento eu, algures no meio desta história vamos dar por nós dentro do estômago de alguém, provavelmente rodeados por chop-suey por todos os lados.
(texto da minha crónica de hoje na RVR. O som pode ser ouvido aqui, com banda sonora incluída).
Quarta-feira, Fevereiro 27, 2013
Constituir uma empresa em Portugal é um pesadelo administrativo, com múltiplos episódios surreais e insólitos. Há muito tempo que não tinha tanta vontade de distribuir baldes de melaço e penas.
Sábado, Fevereiro 23, 2013
O texto da minha crónica desta semana na RVR (o audio pode ser ouvido aqui):
As epifanias são sentimentos estranhos, de súbita e aguda percepção de coisas que, na verdade, há muito tempo que deveríamos ter observado, mas cuja compreensão faz com que, pelo menos naquele instante, nos sintamos como o mais inteligente dos mortais.
Acontecem quando menos esperamos e surpreendem-nos no nosso dia-a-dia, como se de repente tudo fizesse sentido perante os estilhaços destes meteoritos de sabedoria e clarividência.
A mim aconteceu-me no passado domingo, ao circular de carro perante os restos da festa do Carnaval serôdio que houve em Estarreja. Pairava um ambiente estranho nas ruas, de fim de festa depois do fim de festa, com meia dúzia de indefectíveis ébrios que teimavam em competir entre si pela intensidade com que celebravam momentos que para eles aparentemente teriam uma incompreensível densidade emocional. Não compreendo aquela festa quando a vejo no seu tempo certo e muito menos a entendia naquela versão decadente e arrastada sem esperança pelas ruas.
Foi nessa altura que, resignado, liguei o rádio do carro, ouvi um grupo de espanhóis cantar o "Grândola Vila Morena" junto à Puerta del Sol, no centro de uma manifestação em que participavam milhares de pessoas, e senti um arrepio da cabeça aos pés, como se de repente um puzzle complexo se resolvesse por si só. Era a segunda vez em poucos dias que ouvia esta canção, depois de Passos Coelho ter sido interrompido por ela em plena Assembleia da República e alguns dias antes de Miguel Relvas ter passado pelo mesmo no Porto.
"Grândola Vila Morena" é uma das melhores e mais misteriosas canções de Zeca Afonso, pois por um lado tem uma letra que não é absolutamente clara e por outro é feita de uma forma inteligentíssima, com uma componente rítmica que sugere uma marcha popular inexorável, que a determinada altura necessariamente irá atropelar quem surge pela frente, quase ao estilo das batalhas de baionetas dos séculos XVIII e XIX. Como se isso não bastasse, a canção evoca de uma forma quase incoerente, mas com uma precisão cirúrgica, conceitos como fraternidade e igualdade, para além de ser uma enorme homenagem ao poder e à vontade populares.
No episódio da Assembleia da República é particularmente delicioso o momento em que Assunção Esteves, reformada aos 47 anos com mais de 7 mil euros por mês, pede ao povo para se retirar e, com uma coordenação que parece propositada, a canção chega à parte em que se grita que "o povo é quem mais ordena". Assunção tornou-se deste modo numa personagem involuntária de uma peça de teatro criada contra si e desempenhou o papel na perfeição.
E foi nesse momento e naquele contexto, perante o estranho esgar carnavalesco daqueles adolescentes sem esperança, que percebi o que é esta crise e onde é que está o problema. Tal como os estarrejenses decadentes que voluntariamente se arrastavam pelas ruas à chuva uma semana depois do Carnaval apenas porque lhes apetecia, a ninguém se pode negar a autonomia e auto-determinação. O povo, aqui entendido como todos nós e não como o "proletariado" que tantas vezes se apropria destas ocasiões panfletárias, tem todo o direito de "ordenar" o que bem lhe apetece, e em cada momento. E é por isso que a Troika e os imbecis que localmente a seguem não têm o direito, não podem e não vão conseguir impor e ganhar a luta contra a vontade popular.
Ao emprestarem-nos dinheiro apenas para assegurar que as suas próprias economias não entrariam em espirais recessivas e não por solidariedade, os nossos credores não podem pretender controlar-nos e asfixiar-nos fiscalmente, em nome de preconceitos individualistas e xenófobos e numa lógica de total falta de solidariedade, compreensão e amizade. O problema da Europa, na verdade, é muito mais que uma questão económica ou de coesão política. O problema da Europa é, essencialmente, a falta de fraternidade.
Mas eles que não se preocupem, pois a marcha vai continuar, forte, persistente, contínua, cadente e impossível de parar. E não, eles não vão passar incólumes pelo que nos estão a fazer.
Deixo igualmente também as notas que há pouco coloquei no Facebook sobre esta questão:
Escrevi esta crónica logo após o primeiro "Grândola", quando a gravei já inclui uma referência ao segundo "Grândola" e quando ela foi transmitida já existiam 4 ou 5 "Grândolas" no espaço mediático e alguns exercícios radiofónicos semelhantes. É o que dá ser um gajo muito à frente.
(Mas, para que conste, tudo isto aconteceu num dia em que por um lado me sentia particularmente esquerdista e por outro tinha acabado de fazer as contas aos recorrentes aumentos de impostos que este governo ilegítimo - porque foi eleito com bases programáticas diametralmente opostas ao seu exercício governativo - e cobarde me fez)
(segunda nota: este tipo de perseguições moralistas também faz bem)
(terceira nota: ao contrário do que por aí se diz, isto é tudo menos falta de cultura democrática)
(quarta nota: aliás, isto é que é cultura democrática)
(quinta nota: agora, tal como na altura em que escrevi, gravei e produzi a crónica, estou cheio de sono)
As epifanias são sentimentos estranhos, de súbita e aguda percepção de coisas que, na verdade, há muito tempo que deveríamos ter observado, mas cuja compreensão faz com que, pelo menos naquele instante, nos sintamos como o mais inteligente dos mortais.
Acontecem quando menos esperamos e surpreendem-nos no nosso dia-a-dia, como se de repente tudo fizesse sentido perante os estilhaços destes meteoritos de sabedoria e clarividência.
A mim aconteceu-me no passado domingo, ao circular de carro perante os restos da festa do Carnaval serôdio que houve em Estarreja. Pairava um ambiente estranho nas ruas, de fim de festa depois do fim de festa, com meia dúzia de indefectíveis ébrios que teimavam em competir entre si pela intensidade com que celebravam momentos que para eles aparentemente teriam uma incompreensível densidade emocional. Não compreendo aquela festa quando a vejo no seu tempo certo e muito menos a entendia naquela versão decadente e arrastada sem esperança pelas ruas.
Foi nessa altura que, resignado, liguei o rádio do carro, ouvi um grupo de espanhóis cantar o "Grândola Vila Morena" junto à Puerta del Sol, no centro de uma manifestação em que participavam milhares de pessoas, e senti um arrepio da cabeça aos pés, como se de repente um puzzle complexo se resolvesse por si só. Era a segunda vez em poucos dias que ouvia esta canção, depois de Passos Coelho ter sido interrompido por ela em plena Assembleia da República e alguns dias antes de Miguel Relvas ter passado pelo mesmo no Porto.
"Grândola Vila Morena" é uma das melhores e mais misteriosas canções de Zeca Afonso, pois por um lado tem uma letra que não é absolutamente clara e por outro é feita de uma forma inteligentíssima, com uma componente rítmica que sugere uma marcha popular inexorável, que a determinada altura necessariamente irá atropelar quem surge pela frente, quase ao estilo das batalhas de baionetas dos séculos XVIII e XIX. Como se isso não bastasse, a canção evoca de uma forma quase incoerente, mas com uma precisão cirúrgica, conceitos como fraternidade e igualdade, para além de ser uma enorme homenagem ao poder e à vontade populares.
No episódio da Assembleia da República é particularmente delicioso o momento em que Assunção Esteves, reformada aos 47 anos com mais de 7 mil euros por mês, pede ao povo para se retirar e, com uma coordenação que parece propositada, a canção chega à parte em que se grita que "o povo é quem mais ordena". Assunção tornou-se deste modo numa personagem involuntária de uma peça de teatro criada contra si e desempenhou o papel na perfeição.
E foi nesse momento e naquele contexto, perante o estranho esgar carnavalesco daqueles adolescentes sem esperança, que percebi o que é esta crise e onde é que está o problema. Tal como os estarrejenses decadentes que voluntariamente se arrastavam pelas ruas à chuva uma semana depois do Carnaval apenas porque lhes apetecia, a ninguém se pode negar a autonomia e auto-determinação. O povo, aqui entendido como todos nós e não como o "proletariado" que tantas vezes se apropria destas ocasiões panfletárias, tem todo o direito de "ordenar" o que bem lhe apetece, e em cada momento. E é por isso que a Troika e os imbecis que localmente a seguem não têm o direito, não podem e não vão conseguir impor e ganhar a luta contra a vontade popular.
Ao emprestarem-nos dinheiro apenas para assegurar que as suas próprias economias não entrariam em espirais recessivas e não por solidariedade, os nossos credores não podem pretender controlar-nos e asfixiar-nos fiscalmente, em nome de preconceitos individualistas e xenófobos e numa lógica de total falta de solidariedade, compreensão e amizade. O problema da Europa, na verdade, é muito mais que uma questão económica ou de coesão política. O problema da Europa é, essencialmente, a falta de fraternidade.
Mas eles que não se preocupem, pois a marcha vai continuar, forte, persistente, contínua, cadente e impossível de parar. E não, eles não vão passar incólumes pelo que nos estão a fazer.
Deixo igualmente também as notas que há pouco coloquei no Facebook sobre esta questão:
Escrevi esta crónica logo após o primeiro "Grândola", quando a gravei já inclui uma referência ao segundo "Grândola" e quando ela foi transmitida já existiam 4 ou 5 "Grândolas" no espaço mediático e alguns exercícios radiofónicos semelhantes. É o que dá ser um gajo muito à frente.
(Mas, para que conste, tudo isto aconteceu num dia em que por um lado me sentia particularmente esquerdista e por outro tinha acabado de fazer as contas aos recorrentes aumentos de impostos que este governo ilegítimo - porque foi eleito com bases programáticas diametralmente opostas ao seu exercício governativo - e cobarde me fez)
(segunda nota: este tipo de perseguições moralistas também faz bem)
(terceira nota: ao contrário do que por aí se diz, isto é tudo menos falta de cultura democrática)
(quarta nota: aliás, isto é que é cultura democrática)
(quinta nota: agora, tal como na altura em que escrevi, gravei e produzi a crónica, estou cheio de sono)
Sábado, Fevereiro 16, 2013
Há dias Francisco José Viegas ironizou com duas imbecilidades do Ministério das Finanças: a fiscalização da exigência de factura e a utilização da expressão "fatura", dizendo que se fosse confrontado com esse pedido responderia grosseiramente e em brasileiro, tal como a ocasião impunha. É absolutamente impressionante a quantidade de gente muito inteligente que não percebeu a fina ironia do texto. Impressionante e preocupante, pois isso significa que o aborto ortográfico está-se a entranhar de uma forma absolutamente lamentável.
Quarta-feira, Janeiro 30, 2013
A pessoa que José Sócrates escolheu para liderar as suas listas em Braga está neste momento em directo na SIC Notícias a acusar de "falta de pudor" o primeiro-ministro que ele próprio aceitou representar há menos de 2 anos. É isto que o PS tem para apresentar ao país?
Segunda-feira, Janeiro 07, 2013
Com a contratação do sexto defesa-direito, Vercauteren, que enquanto jogador foi extremo-esquerdo, percebeu a mensagem.
